O Ensino de História e a Formação Crítica do Indivíduo

Por: Francielie Moretti

 

Resumo

 

O presente trabalho visa abordar as contribuições do ensino de história para a formação crítica dos alunos, objetivando traçar uma análise sobre a importância do papel do professor de história enquanto mediador deste processo. Assim as reflexões aqui realizadas partem das atuais dificuldades enfrentadas pelo sistema educacional brasileiro, passando por uma breve análise histórica acerca do conceito de História  até chegar às contribuições que a disciplina  realiza para com o desenvolvimento crítico do sujeito, sem negligenciar o importante papel que o professor desta disciplina desempenha nesta empreitada. 

Palavras – chave: Educação, ensino de História, criticidade, professor, aluno.

 

Introdução

 

A escola, como instituição que existe dentro da sociedade e ,portanto, reproduz normas e valores presentes nesta, apresenta-se como importante, se não imprescindível, agente de socialização do indivíduo, uma vez que através dos conteúdos dispostos em seu currículo e da ação daqueles que compõem o cotidiano escolar (professores, direção, funcionários, pais e alunos) a criança/adolescente/adulto aprende ou adquiri conhecimentos que lhe possibilitarão compreender melhor o mundo onde vive e sua própria existência. Neste sentido, a educação e, por conseguinte, a escola atua de modo a contribuir para que o indivíduo conscientize-se sob sua condição de sujeito histórico, que não apenas observa e se submete aos acontecimentos do mundo, mas tem a capacidade de participar e transformar a  realidade, assumindo a posição de construtor de sua própria história e da história social acerca do meio onde esta inserido.

Neste sentido o presente trabalho visa discorrer sobre as contribuições da disciplina de História neste processo emancipatório e dignificante que a formação crítica possibilita ao ser – humano.

 

Breve análise sobre o atual cenário educacional brasileiro

 

Quando analisamos o atual cenário da educação brasileira fica evidente que muitos avanços foram conquistados, principalmente nas últimas décadas, mas se lançarmos um olhar mais minucioso sob o cotidiano escolar perceberemos que, infelizmente, ainda se preservam muitos dos aspectos e práticas negativas existentes desde a época em que o Brasil era uma colônia de Portugal.

Preservamos, por exemplo, a idéia de educação escolar como produtora de mão-de-obra, àquela que serve ao objetivo de preparar o indivíduo para o trabalho, nos custa entender a educação como mecanismo de libertação, de auto-conhecimento e satisfação pessoal, ou melhor, talvez até tenhamos esta compreensão, mas nos é penoso “vivenciar” esta idéia, e para chegar a esta conclusão basta perguntar a meia dúzia de alunos e professores qual é a importância da educação nos dias de hoje, a resposta mais recorrente é a de que sem estudo não se consegue um bom emprego. Persiste, também, a diferenciação de tratamento dispensado a indivíduos de diferentes classes sociais, pois quanto maior a renda econômica da família, melhores serão as condições de estudo da criança e/ou jovem, uma vez que a grande maioria das famílias brasileiras que possuem situação financeira razoável matriculam seus filhos em colégios particulares, situação esta que não parece incomodar aqueles que são os responsáveis pela organização e estruturação do ensino público no Brasil, já que nossos governantes, eleitos para representar e proteger os direitos dos brasileiros, são unânimes na iniciativa de prover a seus filhos (biológicos, não os da pátria) a melhor educação do país (leia-se: Instituições Privadas de Ensino).   

Dentre outros aspectos que contribuem para o quadro desanimador em que se encontra a educação no Brasil, podemos citar, ainda, a precária infra-estrutura existente em muitas unidades escolares (dificultando ou inviabilizando a acessibilidade de portadores de necessidades especiais), a deficitária formação de professores e a violência que assola as instituições de ensino e apavoram professores e pais em todo o território nacional. Poderíamos listar também o desrespeito e o abandono para com o histórico e cultura de índios e afro-brasileiros, que conviveram durante anos com uma educação que simplesmente não reconhecia e valorizava a história  desses povos, que muito contribuíram ( e sofreram) para a construção do Brasil.

Lutar para que a escola seja um espaço de socialização e participação coletiva é um dever de todos os que fazem parte de seu dia-a-dia, neste sentido creio que seja correto afirmar que existe a necessidade de um debate amplo e objetivo, com a participação de todos os segmentos da sociedade civil, sob a iminente necessidade de se buscar alternativas práticas e eficientes que possam, se não sanar, amenizar os principais males que acometem nosso setor educacional, além de exigirmos juntos aos órgãos e pessoas responsáveis a elaboração e efetivação de políticas públicas que visem a melhora e reestruturação da educação pública em nosso país. Contudo para que estas reivindicações aconteçam é necessário uma sociedade ciente de seus direitos e motivada a lutar pelo justiça e igualdade social, e tais iniciativas dependem de um senso crítico aguçado por parte daqueles que compoem o corpo civil . 

As diretrizes curriculates da educação básica do estado do Paraná defendem que:

 

A escola pública brasileira, nas últimas décadas, passou a atender um número cada vez maior de estudantes oriundos das classes populares. Ao assumir essa função, que historicamente justifica a existncia da escola pública, intensificou-se a necessidade de discussões contínuas sobre o papel do ensino básico no projeto de sociedade que se quer para o país. (D.C.E, 2008, p. 14) 

 

Sem isto, talvez daqui a quinhentos anos a educação no Brasil continue apresentando os mesmos problemas da época em que os primeiros jesuítas iniciaram o processo de educação formal em território brasileiro.   

 

Breve histórico do conceito de História

 

A palavra "História" é de origem grega e significa investigação. Seu surgimento provem da necessidade do homem de explicar sua origem, sua vida. Assim, como exemplo desta necessidade, pode-se citar os mitos que, nas sociedades primitivas, era passado de geração para geração sem ter sua autenticidade questionada. Esses mitos geralmente apresentam a idéia da existência de Deuses que eram superiores aos homens, portanto os seres humanos estavam suscetíveis aos seus desígnios.

De acordo com Vavy Pacheco Borges (1993, p. 18-19) a história nasce unida a filosofia. Heródoto é o primeiro homem a empregar o termo História como sinônimo de investigação, pesquisa.

O processo histórico pelo qual passa a humanidade é unificado pelo cristianismo na medida em que este divide a história em A.C e D.C (antes e depois de cristo). Assim a identidade europeia fora construída homogeneamente pelo cristianismo, ou seja, entre os séculos IV e VII somente o clero sabia ler, então pode-se dizer que a igreja católica ditava as regras e organizava as estruturas sociais de acordo com sua necessidade e interesse.

Abandonando a idade média, onde vivia em estado de "encantamento" o homem passa, já na modernidade, por um processo de abandono das idéias estritamente teocêntricas para compreender o mundo a partir de sua própria existência (antropocentrismo).

No embate entre fé e razão, a racionalidade humana sai vencedora e no rastro desta racionalização humana surge o iluminismo, movimento que encarava a História como sendo o desenvolvimento linear progressivo e ininterrupto da razão humana.

No século XVIII surge o positivismo que entendia que era papel da história realizar um levantamento científico acerca de acontecimentos isolados, heróis, acredita-se na atitude neutra do historiador, onde a história é passado e como tal esta morta.

A partir do século XIX o conhecimento histórico passa a ser produzido em Universidades. Em 1929, com a revolução provocada pela Escola dos Annales fica em evidencia os conceitos de historia total e interdisciplinaridade, onde se inicia um processo de revisão dos rumos que a historiografia mundial vinha tomando (História tradicional), neste sentido é fundamental ressaltar as contribuições desta corrente historiográfica á medida que a história passou a ser pensada e analisada criticamente a partir deste momento, já que é através das contribuições de nomes como Marc Bloch, Lucien Febvre, Fernand Braudel e Jacques Le Goff que a história amplia sua atuação e o horizonte de possibilidades acerca de sua escrita.  Assim Peter Burke nos diz que:

 

Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales, incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas. O grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. (BURKE, 1997, p. 126)

 

Nos anos 70 surge a "nova história" que tem entre um de seus principais representantes o historiador Le Goff, sob o prisma desta nova história tem origem os conceitos de história das mentalidades e história em migalhas. Segundo Burke:

   

A nova história é a história escrita como uma reação deliberada contra o “paradigma” tradicional(...) Por outro lado, a nova história começou a se interessar por virtualmente toda a atividade humana. (BURKE, 1992, p. 10-11)

 

            Ainda hoje, na historiografia e no entendimento que se tem sobre o que é história as compreensões e paradigmas propostos pela nova história, embora não sejam unanimidade, contribuem significativamente para a construção escrita dos historiadores.

 

As contribuições da História para a formação social do aluno

 

A compreensão que se tem hoje sobre o que é história e qual a sua função na sociedade é bastante diferente daquela entendida pela historiografia tradicional, embora alguns traços desta história tradicional ainda possam ser percebidos na sociedade.

A História deve ser compreendida como Disciplina/ciência realizada pelos homens, é ela que representa a transformação humana. É necessária a consciência de que todos são sujeitos históricos, e por meio da história o sujeito compreende as condições sociais em que vive. É por meio da história que a sociedade adquire capacidades de entender a si mesma, ela nos apresenta um campo de possibilidades e não de certezas, assim a História busca compreender as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas, suas mudanças e permanências, e para isso se utiliza da dimensão temporal, ou seja, a história é o estudo das ações humanas no tempo.

Neste sentido pode-se dizer que o ensino de História se faz imprescindível a medida que é através desta disciplina que o aluno adquiri capacidades e potencialidades que lhe permitirão assumir uma postura mais autônoma e critica frente as realidades sociais que lhe permeiam, não que as demais disciplinas do curriculo escolar não exerçam também papel importantissimo, ocorre que é por meio do ensino de historia que o aluno conhece os percursos e mecanismos que construiram as relações sociais e o mundo tal qual o conhecemos hoje, ou seja, a disciplina de história sozinha não forma cidadãos críticos porém ela é determinante na construção da leitura de mundo deste aluno.

Assim para Schmidt e Cainelli:

 

O professor de história ajuda o aluno a adquirir as ferramentas de trabalho necessárias para aprender a pensar historicamente, o saber-fazer, o saber-fazer-bem, lançando os germes do histórico. Ele é responsável por ensinar ao aluno como captar e valorizar a diversidade das fontes e dos pontos de vistas históricos, levando-o a reconstruir, por adução, o percurso da narrativa histórica. (SCHMIDT E CAINELLI, 2009, p. 34)

 

Sendo assim é importante que o docente tenha o correto entendimento de que tudo tem historicidade, ou seja, todas as coisas e todas  as atividades humanas tem um sentido para a história ou sentido histórico, e que reconhecer esta historicidade significa agir em função do presente, buscando orientação para o futuro e deste modo ele estará contribuindo  não só para a formação crítica de seu aluno mas para o processo de humanização deste.

O passado nos fornece elementos para compreendermos o presente, pois a história não é uma ciência ou disciplina que visa estudar somente o passado morto e imutável, ao contrário, história é vida, é movimento, é transformação e sua atuação seria comum à todas as épocas e pessoas, a história é fruto da ação humana através dos tempos, onde existir o homem existe a História.

Estudar história não é achar respostas é antes aprender a fazer pergunta, é através dela que os homens compreendem a vida em sociedade e o seu papel social nesta sociedade, ou seja, a história é inerente ao ser humano, pois ele não só a constrói  como também é construido por ela, por meio dela compreende melhor o meio em que vive.

Ao estudar o homem, a História privilegia a dimensão temporal da existência humana. Quando percebemos nosso passado histórico,  temos condições de agir sob a realidade, assim, a história é uma necessidade humana e social, ela nos ensina, dentre outros aspectos, à conviver com as diferenças, com as multiplas culturas.

Sendo a história movimento e dinamismo, pois está em permanente construção, ela possibilita a interação com o outro, o que por sua vez, contribui para a mudança e transformação do ser-humano ela é interpretada conforme a ótica e os valores de cada época, sendo continuamente reescrita, uma vez que as informações ou conhecimento que chegam até nós não devem ser considerados verdades absolutas, mas sim devem ser filtrados pelo senso crítico histórico.

Neste sentido, é necessário que o professor/historiador mantenha com o passado uma relação ativa, ou seja, sirva-se de sua lições para melhor compreender a sociedade e nosso tempo, para que deste modo possa motivar/incentivar seus alunos a pensarem criticamente não só sobre o meio social onde estão inserido mas acerca do seu próprio existir.

 

Considerações finais

 

Na tarefa de auxiliar seu aluno na construção de seu senso crítico é de fundamental importância que o professor de história atue de modo a possibilitar que seus alunos compreendam-se como sujeitos históricos, buscar empreender junto ao aluno a superação da visão de história enquanto ciência que estuda somente os fatos, acontecimentos e personagens do passado, e para isto se faz necessário que o docente busque diferentes materiais e metodologias de ensino que superem a visão sempre parcial que existe no livro didático, pois apesar de se constituírem em importante ferramenta de auxilio no trabalho do professor, este não pode basear o processo de ensino-aprendizagem exclusivamente neste material.

O professor de história, utilizando-se da criatividade e do amor ao conhecimento, deve pautar sua atuação profissional na tarefa de demonstrar para seus alunos que existem diferentes versões históricas, e que o aluno é um agente histórico capaz de não só reproduzir os mecanismos presentes na sociedade, mas também de transformá-los através da investigação e tomada de consciência quanto ao meio social no qual está inserido.

Muito além do trabalho pedagógico que realiza o professor de história deve entender-se também como pesquisador, que não apenas transmite as informações contidas nos livros, mas, sobretudo, orienta e motiva o questionamento e investigação daquilo que os textos e as demais fontes utilizadas apresentam.

 

Referências

 

BERUTTI, Flávio; MARQUES, Adhemar. Ensinar e aprender História. Belo Horizonte: Editora RHJ, 2009.

 

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. 2ª ed. revisada. São Paulo:Brasiliense, 1993.

 

BOSCHI, Caio Cesar. Por que estudar História. São Paulo:Ática, 2007. 

 

BURKE, Peter. A escola dos Annales – A revolução francesa da historiografia. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1997.   

 

BURKE, Peter (org). A Escrita da História – Novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992.

 

CABRINI, Conceição. O Ensino de História – Revisão Urgente. São Paulo: Brasiliense, 2004.

 

FERREIRA, Marieta de Moraes; FRANCO, Renato. Aprendendo História: reflexão e ensino. São Paulo: Editora do Brasil, 2009.

 

FONSECA, Thais Nivia de Lima e Fonseca. História & Ensino de História. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2006.

 

KARNAL, Leandro (org). História na sala de aula – conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2010.

 

LE GOFF, Jacques. A história Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1988.      

 

PARANÁ. Diretrizes Curriculares da Educação Básica – História. Paraná. P. 01 – 96, 2008.

 

SCHIMIDT, Maria Auxiliadora; CAINELLI, Marlene. Ensinar História. São Paulo: Editora Scipione, 2004.

Comments